Review NYFW: Experiência versus produto

Por @fashionxow

A semana de moda de NYC aconteceu em formato reduzido nesta última temporada, com dois dias a menos. A mudança veio após uma decisão interna dos produtores, que acreditavam que o evento era longo demais e não tinha uma curadoria de desfiles tão bem feita, cansando os compradores. Além disso, as marca têm migrado cada vez mais para as cidades europeias ou simplesmente parado de fazer desfiles. 

Essa decisão trouxe uma semana de moda confusa, com um mix duvidoso de novos designers e estilistas já consagrados e, sinceramente, com pouca emoção criativa relacionada a produto. A emoção vinha do comportamento. A NYFW é conhecida por ser a mais diversa em relação às modelos. Olhando para outro ponto, a temporada trouxe inovação no próprio formato dos desfiles. Experiências imersivas foram mais presentes. Pyer Moss apresentou-se em um teatro com direito a vários shows e 500 ingressos de graça, e Ralph Lauren (que lança um doc na HBO em breve) com seu boooooring clube de jazz dos anos 1920 –  bem Chanel antigo, chato, sem alma, mas chic – e outros. Janelle Monáe foi a atração final do desfile de Ralph e trouxe o soul esperado, que poderia ter chegado no começo do desfile para os convidados não morrerem de sono. 

Pyer Moss / Foto: Filippo Fior

Essa febre de desfiles imersivos deve-se muito ao entendimento das marcas de que não só o consumidor agora prefere experiência à produto, mas que ele também prefere vídeos a imagens. Os stories são mais vistos que o feed e o desfile precisa ser “instagramável” . Os americanos, as always, também preferem likes, conceito, branding ao invés de produto bem feito e moda raiz. 

Tommy Hilfiger foi um dos que aderiu à moda e fez um desfile-show em mais uma colaboração com a Zendaya. Numa festa na rua, com a galera tocando um jazz meio latino, cheio de referências dos anos 70, pois, couro dos pés à cabeça, veludo e alfaiataria. 

 Impossível falar em desfile-show e não citar o incrível evento da Savage x Fenty da Rihanna. Pelo segundo ano, o desfile celebra o corpo feminino e sua sexualidade em um ambiente inclusivo e diverso. Mulheres de todas as cores, formas e tipos dançando (até funk brasileiro!) em coreografias saídas de vídeo clipes, com cenário, luz, tudo impecável. Os espectadores foram proibidos de levarem seus celulares e o vídeo oficial do desfile só saiu alguns dias depois, deixando a galera do Instagram mais ansiosa do que nunca. Victoria’s Secret who? 

Batscheva / Foto: Daniele Oberrauch

Enquanto isso, Batsheva desfilou em uma sala de aula de direito, com um psicanalista, um filósofo e uma historiadora falando sobre a coleção. Não tinha música, gente! Tinha até powerpoint. Foi chato como parece? Foi. As roupas continuam com cara de brechó vitoriano? Continuam, mas na Kirsten Dunst tudo fica lindo. 

Roupa vitoriana por roupa vitoriana, sou mais a Brock Collection, que teve um pezinho em Maria Antonieta, mas que é melhor construído e fez um desfile bom… para figurinista. Roupa sem nada de novo, sem twist, parada no tempo. Ao contrário de Eckhaus Latta, que reverencia o passado, mas de uma forma extremamente cool. Maryam Nassir Zadeh também. Cool, cool, cool. 

Já Carolina Herrera deu uma pequena modernizada, principalmente nos prints, mas sem assustar os antigos consumidores com looks que deverão estar em um red carpet por aí. Tipo Oscar de La Renta, que trouxe novidade nos materiais: muita coisa rústica, natural, sinal dos novos tempos. 

Carolina Herrera / Foto: Alessandro Lucioni

Voltando à Pyer Moss, Jean Raymond (que é também o novo diretor artístico da Reebok) tem se consagrado com um dos designers mais interessantes da cidade. Trazendo importantes tópicos da cultura negra, seus desfiles são extremamente políticos e necessários, começando com o movimento ativista “Black Lives Matter”. Na última passarela havia uma mulher de hijab, um coral gospel, música soul e um discurso que remetia à história negra americana: da escravidão aos panteras negras. Realmente emocionante. 

Outra forma de inovação na passarela foi feito pelas marcas CDLM, Vaquera e Section 8, que juntaram os três desfiles em um. Ideia maravilhosa para economizar custos e juntar mais imprensa. Para não falar que foi tudo zero em termos de produto, deu vontade de zerar o cartão e parcelar em dez vezes o desfile todo da Gabriela Hearst – que também zerou o carbono do evento, assim como a Gucci vai fazer. Gabriela inova nos materiais, pensa em produto, e muita gente vem comparando ela a Hermès. 

Proenza também não decepcionou ao trazer novamente o power dressing para o armário feminino. As mulheres que equilibram mil em uma (executivas, mães, amigas…) agradecem pela chiqueria dos blazers com pegada 80’s por cima de tops desestruturados em um mix com o minimalismo dos anos 90 e óculos com a cara da época. Brincos lindos, tudo chic de doer. Orfãos de #oldceline agradecem. 

Prabal Gurung / Foto: Filippo Fior

Quem também olhou para os anos 80 foi a Tory Burch, que trouxe uma coleção inspirada na princesa Diana. A inspiração foi beeem vaga, deixando tudo palatável pro consumidor da marca. Os tênis brancos com vestido – que já vêm sendo usados a beça – ficaram interessantes na passarela, apesar de serem zero novidade. Enquanto isso, Prabal Gurung colocou umas flores penduradas nos vestidos, na cabeça e muita estampa floral. “Florals for spring? Groundbreaking.”, já diria Miranda Priestly, e Michael Kors fez umas coisas meio navy que não quero nem comentar… 

Por fim, Marc Jacobs conseguiu trazer mais emoção ao fechar a semana de moda na cidade. Modelos sorridentes (!!!) desfilaram bem coloridonas na rua, cada uma com um look totalmente diferente da anterior, vindas na passarela em bando. Essa moda de cada um na sua, criando uma individualidade forte (como cada mulher atual!) e opções para todos os gostos vêm muito de Alessandro Michelli, da Gucci. Esse tipo de desfile pede um styling primoroso para trazer unidade à coleção e não parecer que foi um mashup de ideias perdido. Unificando acessórios, cartela e maquiagem ele deixou uma atmosfera fun e otimista no ar, coisa que os americanos têm precisado ultimamente. 

Marc Jacobs / Foto: Filippo Fior

See ya NYC! Treine seu british accent porque a semana de moda londrina vem aí! 

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