Fenty Beauty, um debate necessário

Por: Anna Paula Chagas

Para empreender é preciso ter estratégia: estudar seu público-alvo, atualizar-se sobre quem consome o seu produto e os motivos pelos quais o fazem. Questionar-se permanentemente ajuda a enxergar de uma forma mais verdadeira e realista o seu negócio frente ao mercado que você atende.

Essa reflexão serve para todos os âmbitos, produtos e etapas. Tanto uma marca no início de trajetória, quanto as que já têm mais história para contar. Conhecer cada vírgula da própria essência é a chave para o sucesso mercadológico.

A marca internacional de maquiagem e skincare Fenty Beauty chegou ao Brasil no dia 18 de agosto por meio das lojas físicas e online da Sephora. Apesar de ser uma empresa lançada pela cantora Rihanna e diferenciada por sua extensa linha de produtos, a estratégia de marketing no país não agradou boa parte dos brasileiros e muitos manifestaram sua insatisfação nas redes sociais.

Um dos diferenciais da Fenty Beauty é a diversidade – são mais de 40 bases de diferentes tonalidades para todos os tipos de pele, sem contar a identidade forte que a marca carrega. A Fenty abraçou uma causa que nos faz refletir: sim, pessoas negras têm o poder de compra, mas muitas vezes não têm um produto para chamar de seu. É necessário pensar e repensar sobre este argumento não só como estratégia de mercado, mas por questões históricas.

Sendo reconhecida mundialmente pela sua forma de quebrar os padrões de marketing para cosméticos, a marca conquistou como consumidora a premiada atriz Viola Davis. Em uma entrevista, Viola elogiou a atitude da empresa e afirmou que agora pode obter uma base que é exatamente do tom de sua pele retinta. Ela acrescentou que, tempos atrás, era preciso usar uma base cinco vezes mais clara ou até mesmo misturar dois tons até chegar ao que lhe caia bem.

No entanto, no Brasil, infelizmente, o propósito da marca não foi atendido como em outros países. Não só por sua campanha, que evidenciou a falta de pessoas negras de pele retinta para anunciar o produto, mas também pelo fato de o Brasil ser o país com sua maior população negra fora do continente africano.

A grande diversidade proposta pela marca não foi enfatizada como deveria. Este diferencial promoveu um movimento no mercado e uma dinâmica revolucionária que precisa ser lembrada. O fato de a Fenty Beauty chegar no Brasil com sua cartela extensa de cores já pode ser considerado um marco no mercado de beleza. A tendência é que esta questão atingirá outras marcas nacionais que limitam seus produtos às cores claras e, consequentemente, seu público.

A sociedade já está ciente e já se questiona também. “Se não me vejo, não compro” é uma das frases mais ouvidas quando o assunto é mercado, inclusão e representatividade. É preciso se atualizar e entender em que tempo estamos.

Não é sobre a Fenty nem muito menos sobre Rihanna, é sobre uma campanha de marketing feita no Brasil de maneira incoerente com a realidade do país e não fiel ao propósito da marca: faltou gente, observação e sensibilidade. Faltou estratégia e isso diz muito sobre a indústria da beleza e da moda.

 

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