Segundo talkshow do RMDI traz iniciativas que fogem do óbvio

Por Thaís Silveira

A ponte entre criatividade, inovação e tecnologia foi o foco do talkshow internacional do primeiro dia do Rio Moda Discute Internacional 2017. A estilista israelense Noa Raviv fez uma apresentação por Skype, seguida por Evilásio Miranda, da agência Nelly Rodi; Renan Serrano, da Trendt; e Helen Rödel, da marca homônima. O segundo encontro da noite movimentou o Teatro Oi Casa Grande. Noa, conhecida pelo uso da tecnologia em suas produções, abriu a conferência com um exercício: a plateia deveria imaginar vestir a sua roupa favorita. O objetivo era fazer as pessoas se sentirem bem. Depois, ela pediu que imaginassem todos vestidos com a mesma roupa que cada um escolheu durante dois anos.

Foi assim que ela se viu ao servir o Exército israelense, que também é obrigatório para mulheres. O descontentamento com esse trabalho fez com que ela se graduasse em Design de Moda depois de servir. Atualmente, Noa é conhecida por criar peças em 3D, que representam uma relação visual entre corpo, objetos e ambiente. Ela já exibiu coleções ao redor do mundo, como no Museum of Fine Arts de Boston e no Metropolitan Museum of Art de Nova York, onde mora. Em 2016, ela foi selecionada pela Vogue como uma das 16 melhores novas designers.

Para falar sobre a relação entre inovação e design, Evilásio Miranda compartilhou sua  experiência na agência francesa Nelly Rodi, que atende marcas como Zara e Victoria’s Secret. Ele entrou para a área com o objetivo de internacionalizar a moda brasileira e vender um Brasil original. “Não necessariamente originalidade é sinônimo de inovação. Comecei a pensar na produção que não saía da passarela: se não chega a ninguém, é inovação?”, questiona. “Inovar é gerar valor para alguém. É preciso olhar para o que o consumidor está pensando e entender os desejos dele”.

Durante o talkshow, Miranda apresentou algumas iniciativas inovadoras. A Adidas criou um tênis feito a partir de lixo, e na Serpentina Bikinis, uma árvore é plantada a cada peça vendida. A Everlane adotou a transparência e passou a exibir os custos no próprio site. Jessica Haughton usou a impressão 3D, assim como Noa Raviv, para produzir uma lingerie que não marcasse e nem incomodasse.

Na contramão da produção computadorizada, Helen Rödel cria vestidos de crochê feitos artesanalmente: “Faço 3D a mão”, disse ela. A estilista tem uma íntima relação com a técnica, que pode começar de uma forma e terminar completamente diferente do que ela havia imaginado. Ela faz crochê desde criança, mas estuda a prática há 11 anos. “A minha história no design é um mergulho profundo dentro de mim mesma. A chave é se expressar sem ter medo do ridículo, imergir na técnica e criar parceiros.”

O mercado de Helen é o destination wear, que são roupas para deleite, principalmente para a praia. Para ganhar escala, ela tem investido no trabalho conjunto de artesãs. “O artesanal só se mantém por meio da relação com o design, da valorização do artesão e do acesso ao mercado”, observou. Além disso, ela trabalhou em projeto com Miranda, da Nelly Rodi, para internacionalização da marca.

Segundo Helen, o desafio é crescer, mas olhar para a cliente que quer comprar com ela. Por isso, a estilista criou o projeto Caravana, em que encontra as consumidoras. No encontro, Helen também ressaltou a dificuldade de manter uma loja, já que as peças dela são caras (variam de três a dez mil reais).

Renan Serrano também observou que o papel do designer é ter insights que o computador não identifica. Ele começou produzindo roupas neutras, com muitas transparências. Com o passar do tempo, cada vez mais homens compravam as peças. Atualmente, de 50 a 60% dos clientes da marca são do sexo masculino. Atém disso, Serrano notou uma identificação dos consumidores com determinadas peças. Eles começaram a pedir roupas compradas dois anos atrás porque ficaram desgastadas. Assim, o site da marca, criado há um ano, expõe apenas um produto.

Serrano aposta em testar novos materiais ao invés de só confiar em tendências. Na incubadora de moda Be to Be, ele pensou em criar uma “loja bolha”, que fosse portátil. A eliminação dos custos fixos e a descentralização também foi um processo inovador desenvolvido pela Trendt de Serrano. “Com um custo fixo menor, eu trabalho menos. Não tenho mais pressa e não quero ficar mais rico. É importante trazer o processo para perto das pessoas. Quem faz moda deve enxergar o que vem da rua.”

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