Quem foi Franca Sozanni: a Editora de Moda da Vogue Italiana

Por Atalide Soares

O mundo da moda despediu-se recentemente de Franca Sozzani, diretora da editora Condé Nast e editora-chefe da Vogue Itália há 28 anos. Faleceu aos 66 anos na capital da Itália. Ela era considerada uma das personalidades mais talentosas e visionárias do mundo da moda.

Sozzani começou a escrever sua história em 1976 na “Vogue Bambini” como “assistente da assistente da assistente”. Passou também por outras revistas antes de ingressar, em 1988, no time da Vogue Itália. Como editora-chefe da revista italiana, Franca ficou conhecida pelos seus editoriais polêmicos e por estar sempre um passo à frente de sua geração. Desafiou as leis de gênero, preconceito social, racismo e machismo.

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Coragem é a palavra que maior define a trajetória de Franca Sozzani no mundo da moda. Ela sempre escolheu avançar pelos caminhos mais ousados, nunca pelo senso comum e sempre sem medo. Questionou, por diversas vezes e em diferentes formas, em seus editoriais, a obsessão pelas cirurgias plásticas, o novo papel da mulher na sociedade e até a violência doméstica. Sendo esse último assunto o tema do editorial que mais causou polêmica e gerou diversas críticas. Mas, nunca intimidada, Sozzani apenas respondeu dizendo: “Na Itália, a cada três dias, uma mulher morre assassinada por um parente, pelo marido ou pelo namorado. A ferramenta que eu tenho [para protestar contra isso] é uma revista de moda”.

Em 2006, a edição de setembro levantou polêmica com o editorial “State of Emergency”, remetendo aos atentados terroristas de 11 de setembro nos EUA. Em “Supermodels Enter Rehab” (2007), o tema era a onda de reabilitação das celebridades. Em 2008, Sozzani inovou fazendo a edição intitulada de “Black Issue”, que trazia só modelos negras nas capas e nos recheios. No ano seguinte, surpreendeu mais uma vez ao trazer para a Vogue de junho um suplemento em comemoração aos 50 anos da Barbie apenas com as versões negras da boneca mais famosa do mundo.

 

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Em 2009, Franca resolveu brincar com o sucesso do Twitter e dedicou a edição de dezembro inteira à rede social que vinha se tornando febre no mundo inteiro. As páginas da revista reproduziam o Twitpic como se as próprias modelos estivessem publicando as imagens. E, em 2010, trouxe um editorial nomeado de “Water & Oil”, que abordava a questão do vazamento de óleo no Golfo do México.

Ela também defendeu um grupo de fotógrafos, incluindo Steven Meisel, Bruce Weber, Peter Lindbergh, e Paolo Roversi, dando-lhes total liberdade para escolher modelos e temas, e encorajando-os a experimentar com seus trabalhos. Em uma entrevista ao WWD, ela destacou a importância da imagem em seu trabalho: “A Vogue era em italiano e eu queria me comunicar com todos, então pensei em criar imagens que fossem feitas para falar. O normal era a foto servir como um suporte para o texto, mas nós fizemos o contrário, reduzindo as palavras para o mínimo possível”.

No recém-lançado documentário “Franca: Caos e Criação”, dirigido por seu filho, Francesco, o CEO da Condé Nast Internacional Jonathan Newhouse contou que chegou a pensar em demiti-la, pois seu trabalho estava chocando o público. Felizmente, isso não aconteceu. E pudemos vê-la propor ótimas reflexões sobre a sociedade através de seus trabalhos na Vogue Itália. Em carta aberta, Anna Wintour disse que Franca era a profissional mais esforçada que ela conheceu e que conseguia fazer tudo parecer fácil.

Franca Sozzani e o filho, Francesco.
Franca Sozzani e o filho, Francesco.

 

Com Anna Wintour, da Vogue América, ela formava a dupla de editoras de moda mais poderosa da atualidade, descobridora de novos talentos e capaz de mudar a carreira de qualquer profissional do setor – para o bem (quando elas o recrutavam para suas páginas) e para o mal (se elas o ignoravam).
Sozzani também escreveu livros de fotografia e arte, e forneceu texto para catálogos de exposições, colaborando frequentemente com outros escritores, jornalistas e artistas em publicações. Em 2006, ela tornou-se editora da Vogue l’Uomo e, em fevereiro de 2011, lançou a Vogue Curvy, uma revista online dedicada às mulheres com curvas. Moda, estilo, beleza, entrevistas, celebridades, saúde, dentre outros assuntos do mundo curvilíneo, feminino e glamouroso. Em setembro de 2015, ela assumiu a editoria da Vogue Sposa e da Vogue Bambini.

Em paralelo, Franca Sazzoni dedicou parte de sua vida à filantropia, e chegou a ser presidente da Fundação IEO (Instituto Europeu de Oncologia) e embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas. Também foi membro fundador da Child Priority – uma organização sem fins lucrativos criada pela Condé Nast para oferecer estudos concretos e oportunidades de trabalho para aqueles que não têm nenhum, apesar de talentosos e artisticamente dotados. Além disso, trabalhou com a organização AIDS ConVivo.

Usando a moda como uma maneira de manifestar sua visão de mundo e propondo reflexões importantes sobre as mudanças na sociedade nas últimas três décadas, Franca Sozzani eternizou se como uma das maiores e mais importantes personalidades do setor fashion, deixando um legado visual incrível e um imenso vazio em toda a indústria da moda.

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