Murmuro Bè Afrik

Por Beatriz Melo e Letícia Lamarca

Em 2016, a fotógrafa Marilu Cerqueira viajou para a República Centro-Africana em missão de vacinação promovida por agências internacionais, vinculadas às Nações Unidas. Foi lá que nasceu a exposição Murmuro Bè Afrik, que retrata a cultura de diferentes etnias através de fotografias de força documental. Ela fotografa as práticas cotidianas, o trabalho, as festas, as feiras, as cidades, as aldeias e os campos de refugiados. O resultado é uma sensível critica à relação entre dominação colonial e modernidade. Mais detalhes ela conta abaixo:

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Rio Moda: De onde veio a inspiração para a sua exposição?

MC: A inspiração para fazer as fotos veio do meu ser, da percepção de que elas poderiam retratar o que conheci lá. Muita dedicação e trabalho diário. A exposição é o resultado de uma experiência vivida num país onde a população formada por diferentes etnias vivem em condições precárias agravadas, desde 2012, pelo conflito político-religioso entre muçulmanos e cristãos. O trabalho que faço na área de comunicação de proximidade para o engajamento e a mobilização social me traz a oportunidade de conhecer bastante as comunidades locais. Durante os cinco meses fotografei muito! Até mesmo porque a luz natural da RCA é de uma beleza estonteante, considerando que fotografia se faz de luz. Tive uma grande oportunidade.

Ao voltar, em julho, e rever as fotos, percebi que tinha em mãos um acervo diferente do que, normalmente, é publicado ou divulgado sobre o continente. Daí veio a inspiração. As fotos retratam as práticas cotidianas, o trabalho, as festas, as feiras, as frutas e mostram (ou buscam mostrar) que para além da destruição e da guerra existe uma força de vida que emana, inelutável, do rosto, dos olhos e dos sorrisos.

RM: Como foi a experiência de viajar para a República Centro-Africana? E por que ir em missão de vacinação?

MC: Foi difícil. Em viagem desse gênero a gente lida com a falta de liberdade, por exemplo. Você não pode sair sozinho para qualquer lugar. Existe semanalmente a “chamada” no rádio das Nações Unidas, para saber se você está presente. Existe o toque de recolher e a partir das nove da noite não se pode estar em um restaurante, por exemplo. Se estiver na casa de algum amigo e quiser ficar após o horário determinado, deverá pernoitar por lá e voltar a partir das seis horas da manhã do dia seguinte. Fora isso tem a questão cultural. Embora tenha arroz, legumes e peixe, a comida é diferente e, muitas vezes, você adoece por infecção alimentar. Falta energia elétrica em quase todos os lugares e toma-se banho com a água do balde porque mesmo que haja a instalação hidráulica o sistema não funciona. Trabalho com o tema vacinação desde 2011, na área de comunicação, quando trabalhei para a primeira campanha nacional de vacinação, no Haiti, cooperação do Brasil-Cuba-Haiti. Gosto muito de estar com as crianças, elas sempre me ensinam e me cativam. É claro que a vacinação não é a salvação da vida das crianças, mas ela pode contribuir consideravelmente para evitar um dano maior.

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RM: Você gostaria de retornar para, quem sabe, uma próxima edição da Murmuro Bè Afrik? Ou já tem outros destinos em mente?

MC: Gostaria de retornar para mostrar a eles as fotos. Mas não para continuar a fazer o Murmuro Bè Afrik. O projeto Murmuro deve continuar mas com outros temas. O Murmuro Haiti, Murmuro Kenya, Murmuro Rio Negro e por aí vai, assim espero! Muitas vezes imprimia lá na RCA as fotos feitas para entregar às pessoas fotografadas, em impressora sobre papel não fotográfico. Era uma tarefa e tanta e não sei se elas receberam de fato, pois dependia de um favor aqui e outro acolá de alguém que estava viajando para o lugar. Foram alguns desencontros e voltei com algumas impressões. Espero que tenha chegado a alguém. Espero voltar à África. Quem sabe para um país de colonização portuguesa?

RM: Você pretende levar a exposição para outro estado? Outro país?

MC: Sim, espero levar para outros estados no Brasil e outros países. Dependerá das oportunidades.

RM: O que mudou na sua vida a partir deste experiência?

MC: Estou certa de que mudanças aconteceram. Posso adiantar que me sinto mais tolerante porque foram inúmeras as vezes que tive de esperar. Imagina uma reunião marcada para as 9h começar as 13h? Ou você estar em um lugar para um treinamento de equipe e ter de mudar porque a luz foi cortada. Não por falta de pagamento, mas por falta de fornecimento. A partir desses impedimentos burocráticos comecei a sair e ver ao redor, acabei encontrando muita coisa interessante. Em uma dessas ocasiões uma criança se aproximou de mim e me mostrou a perna queimada – provavelmente pelo fogo na lenha para cozinhar. Era uma menina bem criança, não sabia falar. Apenas me sinalizou para a perna dela. Estava no Hospital de Bossangoa, que os Médicos Sem Fronteiras são responsáveis. Aguardava o início de uma reunião de planejamento estratégico para a campanha de vacinação. Essa criança se aproximou de mim e me fez ver o problema dela. Segurei-a pela mão e fui em busca da mãe dela (que estava internada). Perguntei se poderia cuidar da ferida da filha dela e, com o consentimento da mãe, fomos em busca de curativo e conseguimos imediatamente.

A partir dai, todas as vezes que essa criança me via pelo terreno do hospital (todos os familiares dos internados ficam do lado de fora, acampados) ela abria o maior sorriso. Quer um presente maior de vida? Receber o sorriso sincero do rosto de alguém? Isso não significa uma mudança na minha vida a partir dessa experiência. sso significa o quanto se pode mudar ou transformar vidas, inclusive a minha a partir de então.


Para conferir a exposição Murmuro Bè Afrik :

De 12 de dezembro a 29 janeiro 2017

Local: Museu Nacional da República, Brasília

Fotografias: Marilu Cerqueira

Curadoria: Angélica Madeira

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