Moda Inclusiva: pessoas com deficiência são deixadas à margem pela indústria da moda

Por Karina Gaudereto – Publicado em 04 de dezembro de 2017

Motivado pela participação da idealizadora do Projeto Moda Inclusiva, Daniela Auler, no Paraty Eco Festival, o Rio Moda procurou entender como é a relação dos deficientes físicos com a indústria e o mercado de moda.

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Se o Brasil tivesse 100 pessoas, 7 delas teriam algum tipo de deficiência. Essa foi uma comparação feita pelo IBGE com base no último Censo Demográfico de 2010. Na época, mais de 45 milhões de brasileiros eram portadores de alguma deficiência. 

Especificamente na indústria da moda, a procura por opções mais flexíveis de vestuário para pessoas com deficiência física é crescente, no entanto, a oferta ainda está em passos lentos.

Dentre as especificações de roupas que essas pessoas buscam, estão a substituição de botões por zíper, velcro ou ímã; a inserção de elástico em calças jeans; além do deslocamento de costuras e inclusão de bolsos em lugares estratégicos – a fim de oferecer praticidade e conforto para quem usa.

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A estudante carioca Isabel Castro, de 21 anos, usa cadeira de rodas desde os 16, devido a uma má formação congênita na coluna, denominada Espinha Bífida. Ela admite que desde cedo sente dificuldades para se vestir.

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“Minhas maiores dificuldades são roupas com muitos botões, não consigo vestir sozinha”, conta. Apesar de adorar moda, ela comenta que essa indústria ainda não é tão inclusiva como deveria ser.

“A moda é tão presente no nosso dia a dia, mas é feita para um padrão encaixotado, aquele manequim alto e magro, o que é um absurdo, já passou da hora de mudar”, defende Isabel.

E foi observando as dificuldades de alguns pacientes para se vestirem, que Linamara Rizzo Battistella, secretária da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo, convidou Daniela Auler, graduada em Negócios da Moda, com especialização em Responsabilidade Social e Sustentabilidade, para realizar uma pesquisa sobre o assunto.

“A Dra. Linamara, como médica fisiatra, comentou comigo que, na reabilitação desses pacientes, percebia uma dificuldade deles de se vestirem e não entendia por que a moda, que estava avançando tanto em tecidos tecnológicos e inteligentes, não tinha nada para auxiliar essas pessoas”, conta.

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Ao conhecer essa realidade, Daniela idealizou o Projeto Moda Inclusiva na Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, em São Paulo. Há 10 anos, cria soluções que facilitam o dia a dia dessas pessoas ao oferecer maior variedade de roupas para este segmento, além de estimular a autoestima das pessoas com deficiência.

“Na época, ainda existia um preconceito, a gente precisava quebrar paradigmas. Tudo o que se falava sobre as pessoas com deficiência antigamente era muito ligado à saúde e ao assistencialismo, ou seja, à doença, e essas pessoas não são doentes, elas estão em um estado. Então quando você coloca a sensibilidade no ambiente, você quebra a deficiência da pessoa”, explica Daniela.

O concurso, que já está na sua nona edição, é internacional. São aceitos trabalhos do mundo inteiro e os selecionados produzem roupas com apoio da Vicunha Têxtil, que sede os tecidos para os participantes confeccionarem e, no final, há um grande desfile. Este ano, o evento acontecerá no dia 9 de dezembro, na Unibes São Paulo.

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Sob a missão de garantir o acesso das pessoas com deficiência a todos os bens, produtos e serviços existentes na sociedade e com a visão de tornar-se referência mundial em articulação, implementação e monitoramento da inclusão social dessas pessoas, o Projeto Moda Inclusiva é pioneiro nacionalmente e internacionalmente. Muitos dos participantes têm, hoje, marca própria de moda inclusiva, embora ainda online.

“Precisamos avançar na questão da missão e continuar trabalhando para que as pessoas com deficiência, além de terem acesso físico às lojas, araras e provadores, encontrem produtos que possam auxiliar na sua autonomia. Espero que o mercado absorva esse novo conceito e comercialize para que possamos atender a demanda desse público”, comenta Gabriela Sanches, integrante da equipe Moda Inclusiva.

Para Daniela, o maior desafio da moda inclusiva ainda é sensibilizar o mercado. “É preciso mostrar que a peça adaptada não vai custar mais do que uma peça convencional. Não há esse maior custo que as pessoas acham que tem. E sensibilizar também no sentido de que a moda inclusiva não é apenas para pessoas com deficiência. Mostrar que ela vem de encontro com esse slow fashion, que você vai diminuindo esse consumo crescente de “comprar porque está na moda o vermelho ou o amarelo”, mas comprar uma peça que dure mais e que te atenda. É despertar para isso”, afirma.

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Impacto no mercado: ontem x hoje

 Inicialmente, a Constituição Federal de 1988 trouxe a expressão “portadores de deficiência”, mas só em 2010 que o Conselho Nacional Dos Direitos das Pessoas com Deficiência – CONADE redefiniu essa nomenclatura, atualizando-a para “pessoas com deficiência”. 

Já o termo “moda inclusiva” foi criado em São Paulo. Daniela Auler conta que o projeto foi, inclusive, apresentado em concursos na Rússia. “Lá, em Moscou, eles segmentaram para pessoas com deficiência física, sensorial. Diferente daqui, que a gente uniu tudo. Nós levamos esse conceito para lá. Também levamos para a Itália, com palestras, desfiles na Escola de Moda de Milão. Foi interessante notar que fora do Brasil as pessoas começaram a construir mais rápido esse conceito, enquanto aqui ainda está em passos lentos”.

No cenário internacional de desfiles, marcas têm incluído modelos com tipos diferentes de deficiência para desfilar – mesmo sem modelagem inclusiva. A Tommy Hilfiger, recentemente, fez uma parceria com a ONG Runway of Dreams, criada por uma mãe de uma criança com deficiência, que começou a desenvolver peças para melhorar a vida do filho, mas que também estivessem aliadas à beleza. Essa parceria rendeu, neste ano, uma coleção adaptada para pessoas com deficiência.

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*Fotos disponibilizadas pelo Projeto Moda Inclusiva 

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