Marcas: como se posicionar diante do público feminino hoje?

por Patrícia Rodrigues

 

Patrícia Rodrigues faz uma reflexão sobre o comportamento das mulheres na sociedade de hoje, a partir do sucesso das cantoras sertanejas Maiara e MaraísaSimone e Simaria e Marília Mendonça. A diretora da empresa de marketing e branding Mais que Isso lança um questionamento: como marca, qual é o posicionamento que se deve adotar para se comunicar com as novas demandas do público feminino?

“Continuando a listar meus principais aprendizados nos dias em que me propus a tratar do recalque de não ter ido pra NRF (entenda aqui), eu tive uma aula de branding com as novas sensações do sertanejo. Nem estava preparada para isso, aconteceu.

Antes de explicar, deixa eu esclarecer alguns pontos:

. eu não estou entrando em nenhum tipo de tentação ou pretensão para criticar artisticamente, musicalmente ou qualquer coisa do gênero o trabalho dessa mulherada, ponto;

. se você, que dedicou alguns minutos aqui para ler o que tenho pra dizer, gosta, desgosta, odeia, acha lindo, chora, canta, dança e representa ao som de alguma das citadas aqui, a mensagem que deixo é: isso não me diz respeito;

. e se, por adotar qualquer um dos padrões de julgamento e escolha acima, você não estiver disposto a dar um passinho adiante pra vir comigo nessa jornada de pesquisa de comportamento do consumidor, toma aqui uns 50 reais e nos vemos em outra oportunidade.

Porque a ideia aqui é entender o fenômeno de comportamento do consumidor por trás do sucesso avassalador dessas moças. Avassalador.

Estava eu no escritório da Mais que Isso, naqueles momentos de salvar links que nunca serão lidos no facebook, clicar num post aqui, que leva pra um vídeo ali, coisa e tal, uma janela do whatsapp que pula, etc, de repente, ploft: as 10 músicas mais tocadas de 2016. Hummmm. Pensei “hora de dar uma espiada no que as pessoas estão cantando, deve ter alguma coisa de Wesley Safadão”. Sim, eu estava ainda entendendo o Wesley.

(e sim, acho que quem trabalha com marketing e comportamento pre-ci-sa ter o mínimo de humildade de saber que o mundo acontece lá fora, enquanto a gente está aqui lendo os branding books tão bem diagramados)

Bora dar aquela passada rápida e entender, em dois minutos, o que ‘bombou’ nas playlists de 2016.

  • Dos 10 contemplados no ranking, eu conhecia 5 artistas. E 2 músicas.
  • Os 5 que eu nunca tinha escutado falar foram ovacionados pelo auditório do programa (“Caldeirão de Ouro”, afinal, se é pra fazer, faz direito, plim plim).
  • Desses, 3 eram mulheres e sertanejas.

E qual é a importância disso?

A importância é que, até então, elas representariam um nicho bem específico. Seus figurinos, seus timbres e suas posturas as colocariam no imaginário de musas de festival agropecuário de cidade do interior. Quase chacota pra cidade grande.

Mas agora elas falam de empoderamento, de amor próprio, de auto estima. De mulheres que querem ocupar oficialmente e publicamente o território de chefes da casa, da relação, da cama, do trabalho. Elas já eram, sempre foram. Mas agora isso tem uma camada de glamour.

Eu estava, inclusive, certa de que a Naiara era o ícone máximo da mulher poderosa, que, ao ser traída, vai pro flagra, assume pro mundo e resolve mostrar que quem tem grana é ela, tudo na maior tiração de onda, virando a página em grande estilo.

Até que um amigo meu faz um post dizendo que achava que era o oposto disso. Que, se eu preciso humilhar outra mulher ou mesmo o meu ex, é porque eu preciso me auto afirmar e todo esse empoderamento é pra inglês ver. Hummm.

E observar que no clipe de uma das duplas (com a Anitta), a edição e o figurino foram meticulosamente pensados para colocar a única das 3 que não veste 36 em segundo plano, sem um único close de detalhe do seu corpo. E ler, dias depois, que essa mesma cantora teria tido problemas no camarim por vômitos sucessivos causados por remédios para emagrecer (momento Nelson Rubens, sem fontes apuradas).

Sabemos que nós, mulheres, somos bastante críticas com outras mulheres, quase sempre. Não consigo imaginar meu marido na praia criticando outro cara por conta da barriga de chopp (ou de barril de chopp). Mas, sem hipocrisia, quantas e quantas e quantas vezes vejo mulheres criticando a auto estima supostamente exagerada daquela outra ali que ‘deveria’ estar de maiô. Quem nunca? Atire a primeira pedra quem nunca lançou o ‘gente, ela não tem uma amiga pra avisar que está ruim?’.

Quando estamos consumindo, declaramos que queremos respeito, diversidade, igualdade, empoderamento, ainda que, muitas vezes, a gente não consiga ter clareza sobre esses conceitos na prática. Ou até achamos que temos clareza, até ler um post mais instigante de alguém nas redes, que coloca o foco de luz em um ponto novo e traz a reflexão. Adoro quando isso acontece e, se estou aqui me estendendo tanto, é porque também estou aprendendo.

E quando estamos na direção das marcas? Estamos tentando dialogar, entender, ouvir? Nos colocamos no lugar do debate, tomamos partido ou ficamos em cima do muro? Tem que tomar partido? Desafiador fazer marketing nos tempos de hoje, onde, quanto eu estou escrevendo isso aqui, um monte de mulheres e clientes bem mais inteligentes, informadas e articuladas do que eu estão se posicionando. E errando também.

Isso posto, aqui vai um convite para reflexão: o que as marcas que querem conversar com o público feminino precisam aprender? Onde vão se posicionar? Onde está o aspiracional inalcançável que tanto se pregava?

  • Você, marca de moda feminina que ainda acha que modelos tem que fazer uma foto com o sovaco à mostra cobrindo o rosto de um sol que nunca apareceu e cara de não comi e não gostei (o que é verdade, muitas vezes, convenhamos);
  • Você, marca de moda de absorvente, que ainda insiste nessa poesia idiota do líquido azul e da mulher que sai lânguida e confiante de saia branca pelas ruas, quando nós sabemos o quanto queremos aquela calcinha enorme, calça de malha larga e furada e 6.827 quilômetros de distância de qualquer outro humano que possa eventualmente nos irritar (parênteses pra esse filme in-crí-vel que tira sangue da cara desse lugar comum: Libresse – Blood);
  • Você, que acha que a estratégia de contratar blogueiras, influencers (que tédio…aff), youtubers e afins ‘dialoga’ melhor com o público feminino, porque afinal, todas nós acreditamos que dá pra ser feliz e manter a sanidade sem glúten, sem açúcar, sem gordura, sem lactose, sem tesão, porque afinal, a moça do instagram assim o faz é tãaaaaaaaaaao feliz;

Você está Loka.

“Insiste em ficar em cima desse muro

Espera a mudança em quem não tem futuro”

Apenas pare. A verdade está lá fora.

Lá fora também está a Lady Gaga, que mencionou nossas meninas (sim, já estou me apropriando): http://ego.globo.com/famosos/noticia/2017/02/lady-gaga-usa-musicas-de-simone-e-simaria-e-sertanejas-comentam.html . Boba ela não é.

O que eu aprendi com isso tudo? Que se tanta gente se emociona, se identifica, canta e bate palma, é porque existe uma identidade, um perfil de comportamento que ultrapassa classe social, idade ou manequim.

E se você chegou até aqui e agora está pensando em “mas eu não tô nem aí pra Lady Gaga”, “acho a música dela um lixo”, “amo a Lady Gaga”, “prefiro a Beyonce”, blablabla: toma aqui uns 50 dólares and see you soon.

Inté,”

 

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