“Faça Você Mesmo”: histórias de pessoas que estão produzindo as próprias roupas

Por Mariah Medeiros e Paula Laureano – Publicado em 26 de dezembro de 2018

Questionamentos e discussões sobre a cadeia produtiva da moda têm levado pessoas a procurarem participar ativamente da produção de suas roupas. Por isso, o movimento “Faça Você Mesmo” tem ganhado mais adeptos. Conheça agora a história de algumas pessoas que passaram a produzir as próprias peças. 

Nos dias de hoje, a cadeia produtiva na moda e sua sustentabilidade nos aspectos ambientais e sociais está sendo, cada vez mais, questionada. “O que a marca faz para o bem do meio ambiente?”, “será que os funcionários estão sendo bem tratados?” são algumas das perguntas.

A partir dessa inquietação, as pessoas estão repensando suas formas de consumo e enxergando que uma das possibilidades de se relacionar melhor com a moda é participando do processo produtivo. Sendo assim, participar do movimento “Faça Você Mesmo” tem sido o caminho para essas pessoas.

Em sintonia com esse cenário, a designer Mary Brito criou o projeto Lumilab que incentiva as pessoas a produzirem suas próprias roupas e objetos. O canal no youtube conta com tutoriais de corte e costura, ao mesmo tempo em que o site traz uma loja online de modelagens.

“Eu venho de um cenário de moda padrão, tive uma marca com loja física, outra em parceria com uma confecção. Chegou uma hora que o padrão já estava me incomodando: fazer, vender, fazer, vender. E nesse meio nada é agregado”, explica.

Maryana conta que desde criança é estimulada em casa por sua mãe a ocupar o tempo fazendo alguma coisa como bijuteria, crochê e pinturas em tecidos. O que despertou o seu gosto por fabricar suas próprias peças. Hoje, seu propósito é incentivar às pessoas a se expressarem.

“Acredito que quando aprendem a fazer, elas começam a repensar seu consumo, começam a valorizar os profissionais da cadeia, se preocupam com os materiais, porque lidam diretamente com as sobras, com os retalhos resultantes do processo, e criam uma conexão diferente com a roupa. Elas fazem conforme o gosto e o estilo pessoal, expressando-se de maneira totalmente individual, o que traz uma super recompensa emocional”, conclui.

A designer comenta que antigamente o mais comum era as pessoas fazerem suas próprias roupas, sejam elas mesmos fazendo, a modista ou a costureira, de forma dedicada e totalmente personalizada.

“Vejo um cenário de pessoas querendo voltar a essa maior participação no processo, procurando alguém para fazer as roupas delas, querendo aprender a costurar. Não só senhoras, o que é mais comum, mas meninas novas que ainda cursam faculdade”, diz Mary.

É o caso da estudante de Design Gráfico da ESPM Anna Tapigliani, de 23 anos. “Eu tinha várias roupas paradas, mas que gostava muito. Não conhecia nenhuma costureira para fazer ajustes, para reinventá-las. Até que apareceu um curso na Malha, que ensinava costurar com a máquina de costura. E eu amei!”, conta Anna, que aprendeu também a técnica de serigrafia, que é a estamparia com tinta “forçada” através de uma tela de seda.

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Aprender a costurar também foi uma conquista prazerosa para as alunas do La Costura, curso que fica em Ipanema, ministrado por Laura Bezerra.

“Em 2 anos, já fiz roupas de neoprene, biquínis, calças, vestidos de festa, roupa de ginástica, roupa UV para praia”, conta Katia Perim. “Meu trabalho não permite horário fixo, mas venho sempre que dá”, diz a médica de 54 anos.

“Minha máquina de costura foi o melhor investimento da vida”, conclui Patrícia Mascarenhas, mãe de 3 filhos. O trabalho do marido já fez com que morasse na Índia, no Chile, na China e há dois anos no Rio. Há um mês na La Costura, já se inscreveu num curso de corte e costura em Salvador, seu próximo destino. “Agora, não paro mais!”, diz.

“Sempre tive a curiosidade de aprender a pregar um botão. Depois que você ganha essa liberdade, vira um hobby, um vício”, explica Priscila Tito.

No curso, Laura deixa as alunas bem à vontade. Para as iniciantes,  explica o básico e, depois, conforme as dúvidas vão surgindo, ela vai auxiliando. A ex-figurinista da Rede Globo desenvolveu métodos simplificados, quando teve que lecionar para pessoas com deficiência e acredita que, para fazer uma peça, o ato tem que ser simples e prático, senão perde a graça.

“Dou aula de como ser autosuficiente em tudo que envolva costura e modelagem, sem cálculos de álgebra chatos. Minhas alunas fazem moldes super complicados e nem sentem”, conta Laura. E completa: “o Faça Você Mesmo é um estado de espírito. Sempre tive esse lema na minha vida, de ser autosuficiente”.

 

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