A verossimilhança e a elegância de Jackie

Por Rafaela Mattera

Se hoje elogiamos os looks de Michelle Obama e alfinetamos os de Melania Trump, quem abriu precedente para comentarmos e sermos, de certa forma, “vigilantes” das produções das primeiras damas americanas foi Jacqueline Kennedy Onassis. Seu estilo está marcado na nossa consciência visual, sejam pelos milhares de fotografias da família Kennedy em momentos públicos e íntimos; a série com mais de 300 serigrafias de Andy Warhol de imagens apropriadas da mídia; ou os cliques de Ron Galella – considerado o primeiro paparazzi do mundo e um obcecado por Jackie, tendo até recebido uma limitar de distância dela e, posteriormente, lançado o livro “Jackie: My Obsession”. Portanto, é inevitável: seu estilo icônico marcou, não só a década de 60, mas está eternizado na história da moda.

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Após quase 23 anos de seu falecimento, sua história passa a ser revisitada no novo filme do diretor chileno Pablo Larrain, Jackie, que estreou nos cinemas brasileiros recentemente e está indicado ao Oscar em três categorias, uma delas, a de Melhor Figurino, que é assinado por Madeline Fontaine. O nome da figurista soa familiar, uma vez que, em sua lista de trabalhos anteriores, está o queridinho francês dos anos 00, Amélie, a biografia Yves Saint Laurent e Séraphine, com o qual ganhou recebeu um prêmio César.

O longa é centrado no dia do assassinato do marido de Jackie, o presidente americano John Kennedy, e os dias subsequentes de sua morte, tendo como fio condutor a histórica entrevista que ela concedeu para a revista Life. Toda a narrativa do filme é pela perspectiva da primeira-dama, agora viúva, que é incrivelmente interpretada por Natalie Portman – sua semelhança com Jackie transcende a aparência física, estendendo-se aos movimentos, voz e obviamente, o estilo. Apesar do sofrimento, sua personagem conduz a trama de forma hábil – o que transparece, principalmente, nas cenas em que está sendo entrevistada. Ela anseia por proteger e perpetuar o curto legado (a palavra “legacy” é constantemente reafirmada no filme) de JFK, sendo interessantíssimo observar como Jackie dedicasse aos dias pós-assassinato com uma percepção midiática precisa sobre o crescimento do uso da televisão naquela época. Cada detalhe do funeral foi considerado, desde a presença de seus dois filhos com casacos azuis pálidos e sapatos vermelhos, ao véu preto transparente que reafirmava seu luto, mas não cobria totalmente seu rosto, até a carruagem com cavalos.

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Aqueles dias fúnebres ficaram marcados na memória visual mundial e, principalmente, americana, pois foram exaustivamente documentados pela mídia, portanto o trabalho da figurista Madeline Fontaine, além de reforçar emocionalmente os personagens, possuía a função de atribuir um caráter crível ao filme, pois os fatos ali narrados eram verídicos e deveriam acionar nos espectadores memórias vistas na televisão, livros didáticos e documentários. Madeline comenta, em entrevista para The Hollywood Reporter & Billboard, sobre a impressionante quantidade de fotos da família Kennedy, tanto nesses dias, quanto em outros momentos da vida íntima e pública; assim como, a aparência sempre impecável, bela e nunca surpresa deles. Essa circunstância certamente foi um pró para Madeline no momento de pesquisa, ao criar o contexto do período e seus personagens. No entanto, sem dúvida, criou altíssimas, expectativas com o público, sendo um desafio recriar um ícone da moda, elegante e querida por muitos, como transparece na frase: “Espero que eu não trai essa memória.”

No figurino de Jackie (Portman), uma das peças mais emblemáticas é o tailleur rosa usado por ela no dia do assassinato de JFK – e em outras 5 ocasiões anteriores. No filme, assim como aconteceu realmente, ela se recusa a trocar o terno manchado com o sangue do marido, para, como ela mesma disse, “Eles verem o que fizeram. ” Curiosamente, a peça original e manchada encontra-se guardada nos Arquivos Nacionais americanos em local climatizado e afastado dos olhos da população até 2103 (!), pois como a morte de Kennedy envolve mistérios, a exibição da roupa poderia causar agitação, como alegam. Apesar do que muito aparenta, o terninho não é Chanel, ele foi feito no ateliê da Chez Ninon, na Park Avenue (Nova York), mas os botões, adornos e o sistema ‘linha por linha’ é da maison de Gabrielle Chanel. Dessa forma, Jackie aparentava ser mais patriota, comprando roupas dos EUA ao invés da França. Para o filme, Madeline recriou 5 modelos da peça e contou com a colaboração da Chanel para encontrar os botões exatos.

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O terno Dior vermelho, usado no histórico documentário da CBS durante o tour na Casa Branca, também foi recriado para o longa. Devido à algumas especificações técnicas do filme, como câmeras, luz e sequências em preto e branco, a equipe de Madeline precisou criar a peça em um vermelho mais vivo e outra em rosa.

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O vestido fourreau verde pistache usado na cena do concerto na Casa Branca, acompanhado de luvas brancas e brincos de pérola, foi a única peça desenhada e criada livremente pela equipe de figurino, tendo como referência o design das roupas criadas pelo estilista Oleg Cassini, que na época fez muitas criações para Jackie. A peça dialoga fielmente com a estética da personagem e traduz aspectos daquela era.

jackie cena concerto vestido criado pistache

Peças menos icônicas foram encontradas em lojas de colecionadores e de aluguel na França, como a La Compaigne Du Costume (vale acessar o site para conferir o acervo e a infinidade de filmes que usaram roupas de lá), com a qual Madeline já trabalhou outras vezes, como no filme Yves Saint Laurent, o Le Vestiaire e Eurocostumes. Também foram feitos garimpos em lojas americanas, como Western Costume e The Palace. Dior enviou um belo vestido preto rendado para o longa. As roupas de dormir também são um destaque, com bastante seda, elegantes e bem características da época.

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Jackie consiste em uma viagem histórica por um dos acontecimentos mais marcantes da história americana e encanta pelas percepções pessoais de Jacqueline serem o ponto focal da narrativa. O figurino de Madeline Fontaine reafirma de forma leal a extrema elegância da primeira-dama que deixou tantas imagens belíssimas em nossa memória. O filme venceu o Critic’s Choice Awar de Melhor Figurino, agora precisamos esperar até 26 de fevereiro para sabermos quem vencerá nesta categoria no Oscar.

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