A cultura visual de La La Land

Por Rafaela Mattera

A primeira coleção de Alta Costura de Maria Grazia Chiuri para Dior e a impressionante aplicação em tule formando um rosto no desfile da Maison Margiela, por John Galliano, certamente foram assunto nas rodas de moda nesta semana. No entanto, até 26 de fevereiro – quando estivermos em pleno domingo de Carnaval – um assunto será constante: a lista de indicados ao Oscar de Melhor Figurino em 2017. Façam suas apostas!

Na categoria estão filmes que estiveram em cartaz nos cinemas brasileiros ano passado, outros que irão estrear em fevereiro e La La Land que, por sua vez, está em exibição atualmente e é o destaque da temporada. Não por menos, uma vez que ganhou 7 Globos de Ouro e possui 14 indicações ao Oscar, uma delas, do figurino assinado por Mary Zophres, que já vestiu a dupla de protagonistas Emma Stone (personagem Mia) e Ryan Gosling (Sebastian) em Caças aos Gângsteres, em 2013.

A trama dirigida por Damien Chazelle (o mesmo de Whiplash) é um musical, gênero de décadas anteriores, que conta uma história contemporânea. Apesar de se passar na atualidade, as referências estéticas são a Era de Hollywood e as cores saturadas dos filmes Technicolor das décadas de 40 e 50. Alusão aos clássicos musicais franceses de Jacques Demy, da década de 60, como The Umbrellas of Cherboug (Os Guarda-Chuvas do Amor, em português), Lola e The Young Girls of Rochefort (Duas Garotas Românticas), também estão presentes.

cena the young girls rochefort referencia

Com cenários icônicos de Los Angeles, como o histórico Rialto Theatre e o observatório Griffith, e o trânsito nas estradas da atualidade, é narrada uma história romântica no sentido de como se vive a vida e batalha pelos seus sonhos. Refrescante e inovador, soa como um filme escapista, mediante a rispidez dos filmes da atualidade e os acontecimentos econômicos e políticos do momento. Para criar uma estética encantadora e desenhar o paralelo com o cinema clássico, o figurino era parte crucial do filme.

Mary Zophers, a figurista, conta que Chazelle exibiu para equipe um compilado de filmes, que faziam parte da cultura visual de La La Land, para todos imergirem naquela atmosfera criativa. Ela alugou todos os filmes, mergulhou em seus arquivos de livros e revistas de outras épocas e durante três dias, ela, o diretor e os set designers analisaram cena por cena como seria o figurino. Juntos decidiram que azul royal, amarelo e vermelho seriam as cores da paleta Technicolor deles e portanto, em todos os momentos que sentissem desejo de mais cor essas seriam repetidas. A intenção era que as cores evocassem uma emoção que fique no subconsciente ou consciente do espectador.

Para harmonizar a magia de Old Hollywood com as trivialidades e tribulações da L.A. moderna ela optou por uma aparência mais clássica, atemporal, nem muito vintage, nem muito atual, uma vez que as roupas deveriam completar e acentuar as locações, a história e os aspectos emocionais dos personagens.

Para o figurino da personagem Mia (Stone), todos os vestidos de cenas de dança foram feitos especialmente para o filme e todos possuíam roupa de baixo combinando, um detalhe quase imperceptível que diz muito sobre o cuidado de Zophres.

vestido amarelo e sapatos combinando

Um dos destaques do guarda-roupa de Mia é o vestido amarelo, que foi inspirado em um Atelier Versace usado pela própria Emma Stone no red carpet. Para acrescentar um tom especial na medida, foram desenhadas flores que nos remetem a Matisse. É interessante observar como o volume da saia deste look é pequeno comparado com um vestido branco usado no final do filme – há uma progressão na personalidade e na estética da personagem.

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O vestido verde esmeralda foi inspirado na roupa de Judy Garland em Nasce uma Estrela e o modelo do decote da peça, em coração, foi muito usado na década 40 e ainda assim é muito atual. A combinação entre o ruivo claro de Emma e o verde cria um jogo de cores complementares.

Além das peças criadas, itens foram garimpados em lojas vintages com a Playclothes e, também na H&M. O único vestido de grife é o Jason Wu usado por ela ao final do filme, o que é algo totalmente coerente, uma vez que, nessa parte a personagem está em outro momento da vida.

Vale ressaltar também a referência a Audrey Hepburn no filme “Cinderela em Paris” ao usar uma calça preta no meio do filme, o que depois é corroborado com uma cena na qual Mia aparece segurando balões em frente ao Arco do Triunfo.

cena cinderela em paris referência

O personagem de Sebastian apaixonado por jazz, aprecia os clássicos e isso obviamente reflete em suas roupas. Zophres olhou para nomes como o músico Hoagy Carmichael, os atores Fred Astaire e Marlon Brando para criar as peças de Seb. Como o orçamento era baixo, o guarda-roupa dele é reduzido, não por isso sendo menos charmoso. O destaque são os sapatos de dança com duas cores, que são retro e extravagantes. Todos gostaram tanto do resultado que acabaram usando-os em praticamente em todas as cenas, com destaque para aquela que Seb e Mia cantam e dançam seu primeiro dueto e ela retira da bolsa sapatos idênticos para combinar com ele – outro detalhe cativante da figurista.

vestido branco

La La Land encanta por seu figurino – mas não só por isso – que dá o tom da personalidade dos personagens e concretiza as infinitas referências do filme. Para continuar nessa atmosfera otimista ao sair do filme, a sugestão é escutar a trilha sonora do filme, com destaque para “City of Stars”, que ganhou o Globo de Ouro de melhor canção original.

 

Todos os indicados na categoria Melhor Figurino Oscar 2017

Florence – Quem é essa mulher?, figurino de Consolata Boyle – em cartaz no ano passado

Animais Fantásticos e Onde Habitam, figurino de Colleen Atwood – em cartaz no ano passado

La La Land – Cantando Estações, figurino de Mary Zophres – em cartaz

Jackie, figurino de Madeline Fontaine – estreia 02/02

Aliados, figurino de Joanna Johnston – estreia 16/02

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